Apresentações
Joaquín González-Alemán
Representante do UNICEF no Brasil
Ao longo de mais de 25 anos de dedicação e liderança no sistema das Nações Unidas, aprendi a olhar para a segurança como um dos pilares que sustentam qualquer operação humanitária. Minha trajetória foi construída em contextos diversos, iniciando por Bósnia-Herzegovina e República Democrática do Congo, com nove anos na América Latina como Representante do UNICEF no Equador e Assessor Regional em Política Social no Panamá, além de posições de liderança na Índia, no Vietnã e na sede em Nova York. Trabalhei sob realidades distintas, tomei decisões sob pressão e acompanhei, de perto, as consequências de acertos e falhas nesse campo. Ainda assim, este livro me surpreendeu. Eu acreditava já ter visto praticamente todas as abordagens possíveis em relação à proteção de nossos trabalhadores, que quase sempre possuem muita burocracia e reportes que nem sempre são lidos. Entretanto, nunca havia encontrado uma leitura capaz de capturar com tamanha precisão a complexidade humana que sustenta nosso comportamento nas ações em campo.
Atualmente, tenho a satisfação de ser o supervisor direto do autor deste manual. Desde o primeiro momento senti que ele ambicionava um processo real de mudança de cultura em segurança do trabalho humanitário. O que começou como uma agenda técnica revelou rapidamente uma inquietação legítima diante das limitações dos modelos tradicionais e uma busca consistente por uma forma mais humana, mais eficaz e mais sustentável de proteger pessoas.
O livro que você tem em mãos é o resultado amadurecido dessa busca. Se eu tivesse tido acesso a este material no início da minha carreira, algumas decisões teriam sido diferentes, não necessariamente mais fáceis, mas certamente mais conscientes. Esta obra convida o leitor a enxergar a segurança não como um conjunto de regras, mas como um sistema humano vivo, moldado por percepções, relações, cansaço, pertencimento e, acima de tudo, cuidado. E faz isso com leveza e precisão, sem recorrer ao tecnicismo excessivo ou à simplificação ingênua.
Há uma honestidade importante na forma como o autor aborda o trabalho humanitário. Pessoas entram nesse setor movidas pelo desejo de fazer diferença no mundo. Mas, ao fazê-lo, frequentemente se expõem a ambientes instáveis, a pressões intensas e a contextos culturais desafiadores, muitas vezes longe de qualquer rede de suporte. Esta obra reconhece essa realidade sem dramatização nem heroísmo e, ao fazê-lo, oferece caminhos concretos para cuidar de quem cuida.
Um dos aspectos mais relevantes do texto é a centralidade dada à saúde mental. Ela não aparece como complemento, mas como eixo estruturante de toda a proposta. Fica claro que a mente é o primeiro equipamento que levamos ao campo, e, paradoxalmente, o mais vulnerável e frequentemente negligenciado. Fadiga, estresse e sobrecarga não são apenas questões de bem-estar, são fatores que alteram a percepção de risco e influenciam decisões críticas. Ignorá-los não é apenas negligência é também fragilidade operacional que pode ter consequências nefastas para as operações e as pessoas.
De forma particularmente inovadora, segurança física, saúde ocupacional, cultura organizacional e comportamento humano aparecem aqui como partes de um mesmo sistema. Quando vistos dessa forma, deixam de competir entre si e passam a se reforçar mutuamente. Trata-se de uma mudança sutil na forma de pensar, mas profundamente transformadora na prática.
Ao trabalhar com Tiago, tenho a oportunidade de ver muitas dessas ideias sendo aplicadas na prática. Vi equipes inicialmente resistentes que começaram a se engajar. Vi lideranças ajustarem, com sutileza, sua forma de atuar. Vi o silêncio dar lugar ao diálogo. E, sobretudo, vi a segurança deixar de ser percebida como uma imposição para se tornar um valor compartilhado. Esse tipo de transformação não acontece por acaso, exige uma extensa compreensão de como as pessoas realmente funcionam
Há algo de profundamente humano neste livro. Ele não romantiza o trabalho humanitário nem simplifica seus riscos. Ao contrário, encara-os com maturidade e oferece uma alternativa que faz sentido porque respeita a forma como as pessoas pensam, sentem e agem sob pressão. Isso é raro, e é justamente por isso que funciona. Em toda a minha experiência, nunca me deparei com uma abordagem sobre a segurança de trabalhadores humanitários como a apresentada neste livro. E, ao reconhecer isso, sinto algo que talvez esse seja o maior elogio que posso fazer a um trabalho como este: ele não apenas faz sentido, faz falta.
Anderson Ray Nakamura
Diretor Regional em Segurança Corporativa
e Presidente da ASIS Chapter São Paulo
Conheci o Tiago Evaristo ainda como um jovem oficial da Polícia Militar do Distrito Federal. Em um ambiente marcado por forte tradição e estruturas consolidadas, ele já demonstrava uma característica que, ao longo do tempo, se provaria central em sua trajetória: a inquietação diante do óbvio.
Enquanto muitos se limitavam à execução de procedimentos, Tiago buscava compreender suas origens, suas limitações e, sobretudo, seus efeitos reais. Havia ali não apenas interesse técnico, mas uma disposição genuína de questionar, algo que nem sempre encontra espaço em organizações onde a estabilidade operacional é frequentemente confundida com imutabilidade.
Essa característica não apenas permaneceu, mas evoluiu. Hoje, mais experiente, o autor alia essa mesma curiosidade investigativa a um repertório sólido e a uma vivência prática que lhe permite transitar com consistência entre teoria e aplicação.
Falo a partir de uma perspectiva construída ao longo de mais de duas décadas atuando na segurança pública, em organismos internacionais e na segurança corporativa, com responsabilidade por operações complexas em diferentes países e contextos de risco. Ao longo desse percurso, ficou claro para mim que os maiores desafios da segurança raramente estão na ausência de controles, mas na forma como esses controles são compreendidos, adotados e sustentados pelas pessoas. É justamente nesse ponto que esta obra se posiciona com relevância.
Ao tratar da segurança no contexto humanitário, o autor propõe uma leitura que vai além da abordagem tradicional, ampliando o foco para dimensões frequentemente negligenciadas: cultura, dinâmica social, percepção de risco, comportamento e saúde mental. Esses elementos não são acessórios, são determinantes diretos da eficácia de qualquer estratégia de segurança. Em ambientes complexos, a diferença entre um procedimento existente e um procedimento efetivo está na adesão. E a adesão é, fundamentalmente, um fenômeno humano.
Outro ponto que merece destaque é a forma como a saúde mental é integrada à discussão. Em contextos de pressão contínua, fadiga, estresse e sobrecarga não afetam apenas o bem-estar, impactam diretamente a tomada de decisão, a percepção de risco e a disciplina operacional. Ignorar esse fator é, na prática, aceitar um nível de exposição que raramente é explicitado, mas frequentemente se materializa.
Embora ancorada no contexto humanitário, esta obra oferece aprendizados valiosos que transcendem esse ambiente. Organizações privadas, especialmente aquelas que operam em estruturas críticas, cadeias logísticas sensíveis ou contextos de alto risco, encontrarão aqui reflexões diretamente aplicáveis à sua realidade.
A integração entre cultura, comportamento, governança e operação, tratada ao longo do texto, dialoga de forma clara com desafios presentes no setor corporativo: desde a baixa aderência a procedimentos até falhas recorrentes em disciplina operacional, passando pela dificuldade de transformar segurança em valor efetivamente compartilhado.
Ao longo da leitura, fica evidente que não se trata de um conjunto de respostas prontas, mas de uma construção consistente que oferece algo mais relevante: melhores formas de pensar o problema. E pensar melhor, em ambientes de risco, é frequentemente o que separa o risco controlado da crise generalizada.
Este é um convite à reflexão e, em alguns momentos, ao desconforto. Especialmente para aqueles que atuam em segurança, gestão de riscos ou operações em ambientes complexos, a leitura provoca uma revisão necessária de premissas que, muitas vezes, são aceitas sem o devido questionamento.
Ao final, o valor desta obra estará menos nas respostas que oferece e mais na capacidade de ampliar o olhar do leitor sobre a segurança como um sistema essencialmente humano. E se isso levar a decisões mais conscientes, mais consistentes e mais sustentáveis ao longo do tempo, então seu propósito terá sido plenamente alcançado.